Não sou feminista militante – mas ultimamente tenho questionado, cada vez mais, se não deveria. É que o machismo anda tão arraigado, tão entranhado na nossa sociedade, que passa desapercebido. As próprias mulheres são vítimas e algozes. E ai daquela que ousar levantar o problema: “gorda, baranga e mal-comida” será só o começo dos elogios.
Outro dia, pouco antes do tão aguardado e cafonérrimo desfile da Victoria’s Secrets, a modelo Adriana Lima contou seus preparativos: se exercita duas ou três vezes ao dia; passa cerca de 10 dias sobrevivendo de líquidos e fica sem tomar sequer água pelas 12 horas anteriores ao desfile. Valha-me Deus!, se aquela mulher, cuja vida diária consiste em se manter super magra, cuja genética já é favorável a esse padrão – bom, se essa mulher precisa de tudo isso para desfilar de lingerie, será que não tem algo errado com o padrão? O que farão as mulheres cotidianas para alcançar o ideal proposto?
Aliás – por que é que não tem um desfile masculino equivalente? Aliás – ninguém acha estranho que em pleno século XXI, cada vez mais as mulheres venham sendo tratadas como objetos? Objetos decorativos e com funções agregadas: não basta mais enfeitar o ambiente, tem que ser excelente mãe, excelente profissional, super boa de cama. E tem mais: não pode ser neurótica. Fácil, né!
E essas revistas/blogs/sites femininos que têm uma seção da “Opinião Masculina”. Sobre os esmaltes, sobre maquiagens e sobre roupas que as mulheres usam. São os próprios veículos de “informação” que vêm dizendo às nossas meninas que a gente se veste e se pinta para agradar aos homens; e que se você quer agradá-los, deve fazer assim, assim, assim. Infelizmente, essas seções fazem sucesso. E parece que quanto mais retrógrados, ditadores de regras e cretinos são os entrevistados, mais as leitoras gostam. Ninguém nem pára e pensa que isso é um ultraje.
Tem um blog que eu sempre achei muito legal, o Vigilantes da Auto-Estima. Acho que a autora faz um trabalho super bacana de mostrar para as mulheres como, apesar de tantas pressões, é possível a gente se valorizar apesar das externalidades negativas. Apesar do mundo cão. Qual não foi minha surpresa ao ver, esses dias, uma videorreportagem (veja aqui) onde a autora entrevista homens e pergunta o que eles acham da mulher que faz sexo no primeiro encontro.
Pausa para respirar e manter a indignação minimamente controlada.
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Isso, em pleno século XXI. Isso, uma autora cujo trabalho se dedica a ajudar as mulheres a terem auto-estima apesar de tudo.
Não consigo me conformar! Não apenas se permite, mas se incentiva que o homem forme um juízo da mulher simplesmente porque ela fez sexo no primeiro encontro. Aquilo passa a definir o que ela é, pense e sente. Aquilo a define por inteiro. A mesma autora que em seguida faz um post intitulado ” Por que damos tanto poder aos outros?”. Eu também pergunto: por que dar esse poder aos homens?
E tudo fica pior. Tem também a entrevista com uma psicóloga/terapeuta, whatever. Que é para dizer se a gente “deve” ou não transar na primeira noite. A resposta dela? “Se tudo o que você quer na vida é isso” – ou seja, se você transar na primeira noite, está fadada a ser para sempre uma mulher fácil e que não vai arrumar um marido para chamar de seu. Compreenderam?
Depois de empoderar tanto os homens, obviamente que eles fazem pleno e mau uso de tal poder: a opinião geral, compartilhada pela tal da psicóloga, é que a mulher que transa na primeira noite não vale nada. Mulher que transa na primeira noite é carente, não se valoriza, está desesperada ou qualquer outra porcaria.
Enquanto até as mulheres ditas modernas e emancipadas pensam assim, agem assim e propagam essas idéias absurdas, fica cada dia mais difícil combatermos essa praga chamada machismo, que tanto nos reprime e maltrata.
Update: após a observação da Amanda, eu editei o post porque foi um erro meu assumir que a terapeuta era psicóloga. Eu não sei qual a formação primária dela, apenas que atua como terapeuta.